Coluna da Chris

Coluna da Chris: Eternamente Responsável pelo que Cativas

 

Na semana retrasada, Joan Rivers, apresentadora do Fashion Police do Canal E! foi entrevistada por David Letterman. O objetivo era comentar a cerimônia de entrega do Oscar e as pessoas que desfilaram no tapete vermelho. Uma das lembranças que fez questão de trazer à tona foi o encontro com a vencedora do Oscar de melhor canção, Adele. Abrindo os braços para descrever a circunferência de Adele, Joan Rivers fez uma piada a respeito da música “Rolling in the deep” – deveria passar a se chamar “Rolling in the deep with fried chicken”. Disse também que Adele estava muito nervosa com a apresentação que faria logo mais e teria dito “minha garganta, eu não consigo engolir”, ao que ela teria respondido “ah, sim, você consegue!!!” – mais uma vez, abriu os braços em torno do próprio corpo sinalizando que Adele teria o tamanho, digamos, de um barril. Joan Rivers não se incomodou minimamente com a reação da platéia, que suspirou um “ohhh…” de desaprovação e nem mesmo com a expressão constrangida de Letterman, que disse que Adele era uma “lovely lady”.

Em terras tupiniquins, em 2010, alunos da Universidade Estadual Paulista, a UNESP, resolveram criar uma competição extra-oficial durante os jogos InterUnesp. Tratava-se do “Rodeio das Gordas”. Uma garota qualquer, escolhida unicamente por ser gorda, era abordada por um rapaz que puxava uma conversa amistosa, com ares de paquera. Em seguida, segundo uma das testemunhas – e combatentes – do tal rodeio, o sujeito deveria “agarrá-la como fazem os peões nas arenas”. Enquanto a moça lutava para se libertar, os demais competidores riam e gritavam “pula, gorda bandida”. Quanto mais a vítima lutasse, mais o grupo aplaudia. Afinal, touro bom é touro bravo.

A última: em 9 de janeiro de 2008, Preta Gil foi à praia com a sua (então?) amiga Sabrina Sato. Paparazzi registravam tudo. Preta levou um “caldo”, foi derrubada por uma onda. Motivo para muitas risadas, certo? Não fosse o fato de uma revista de fofocas ter publicado matéria intitulada “Sabrina Sato e Preta Gil exibem seus contrastes”. A matéria inteira comparava os corpos das duas. Na capa, uma foto das duas, de biquíni, embaixo de um chuveiro. Um site de humor usou a mesma foto para fazer graça, bastando aplicar uma etiqueta de “vou” em cima da Sabrina, uma de “não vou” em cima da Preta. “Baleia”, riu um jornalista em um blog. Finalmente, algumas semanas mais tarde, o programa Pânico na TV fez uma “reconstituição” do tombo, onde a atriz gorda que representava Preta teve que ser rebocada da areia com uma corda puxada por um trator. Sabrina participou do esquete.

Eu poderia encontrar vários outros casos, estes são apenas alguns dos que me chamaram a atenção. São atos que representam uma cultura. Uma cultura que não aceita os “diferentes”, como se tivesse um monte de gente igual para determinar “o padrão”, o temido, famigerado e excludente padrão. Se só gordos são considerados diferentes? Não. Tem muita gente que é “diferente”. Alguns destes diferentes não tiveram opções, como pessoas que não cresceram muito e ficaram baixinhas. Já outros, e essa é a diferença entre o tipo de crítica que se faz, são “diferentes” porque querem. Assim como eu. Mas bato na mesma tecla de sempre, nem todo gordo é gordo porque quer, ou porque não se importe. E nem toda gorda faz disso uma cruzada na vida, o grito de “posso ser como eu quiser!”. Eu faço e essa sempre foi a minha revolta: deixem-me ser! Eu não engulo bem (pun intended) quando uma amiga diz que sou bonita, mas preciso emagrecer. Mas vamos adiante.

Contra a cultura que busca oprimir e encher de culpa os coraçõezinhos, só há uma saída: a revolução. E a revolução consiste unicamente em se tornar hoje mesmo, agora, uma pessoa capaz de amar o seu corpo, mas não apenas isso. A gente tende a ser complacente quando o assunto é o nosso próprio corpo ou o nosso próprio intelecto.

A revolução de fato consiste em cada um se tornar capaz de aceitar o seu próprio corpo e também o corpo do seu vizinho, do seu amigo, do seu pretê, do seu chefe, daquela pessoa que entrou logo depois de você na fila do banco, e da que chegou antes também. E mais ainda: a revolução genuína também inclui não aceitar que alguém, quem quer que seja, discrimine outra pessoa pelo tamanho do seu corpo, qualquer que seja ele. Protestar contra isso, mesmo sob risco de receber olhares estranhos.

Porque é quando a gente passa a não admitir que certas coisas sejam ditas ou feitas é que existe uma possibilidade, ainda que pequena, de que a pessoa que discrimina se sinta um pouquinho constrangida pelo que disse ou fez. E se cada um dos revolucionários conseguir contagiar uma pessoa, e se cada um dos contaminados conseguir fazer com que um discriminador pense antes de fazer a graça, daí sim estaremos evoluindo. Sem armas, sem guerras: apenas mudando os nossos conceitos, a nossa mentalidade e a nossa maneira de reagir ao que acontece em volta.

“Nesta cultura, não importa o seu tamanho, amar o seu corpo e a sua aparência é um ato de absoluta revolução. Há várias maneiras de fazer isso, que dependem de onde você está na sua jornada pessoal. Escolha não participar de qualquer tipo de conversas negativas sobre aparências. Escolha dizer coisas positivas sobre os corpos de outras pessoas e sobre o seu próprio corpo. Quando por acaso ouvir outras pessoas fazendo comentários negativos sobre o corpo de alguém, responda com frases positivas, ou diga algo como “eu espero ansiosamente para viver num mundo onde possamos ver beleza em todos os corpos”.
Ragen Chastain, “Tiny Acts of Revolution”

5 comentários

  1. Eliana disse:

    Isso é imensamente importante,frente à massificação de atitudes e comportamentos que enquadram uma maioria significativa das pessoas,que não refletem e reproduzem preconceitos e onde apenaso que aparece importa,não o que é essencial!

  2. Mais um texto que me fez refletir bastante! Beijos

    Anna Christina Saeta respondeu:

    Legal, Karina 🙂 Beijo

  3. Chris disse:

    @Eliana – e indo na onda do título, “o essencial é invisível aos olhos” 🙂

  4. Carissa disse:

    Não conhecia o site e fiquei encantada com o texto. As pessoas sempre se acham no direito de falar de tudo e de todos, o que é um absurdo.sou aquela magra demais, e as pessoas adoram falar disso. Já me incomodei muito. Hoje, me aceitei e sou feliz assim.

    Bjs
    Eu

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