Coluna da Chris

Coluna da Chris: Já ouviu falar da Mauritânia?

 

A Mauritânia é um pequeno país islâmico situado ao noroeste do continente africano. Ali, pertinho do Marrocos. Eu sei muito pouco da Mauritânia, como o fato de terem sido uma colônia francesa (independentes em 1960), de terem uma população de pouco mais de 3 milhões de habitantes. E que, em algumas regiões desse país, nos lugares mais afastados das cidades, só as mulheres gordas é que tem valor.

Pois é nos confins dessa terra, nas tribos da região do Saara, área onde há seca e fome, que a gordura é não apenas uma questão de beleza, mas também um sinal de prosperidade. Um corpo roliço vale um bom casamento, porque os homens vêem a magreza como um sinal de miséria e doença, e não aceitam se casar com as moças magras. E, neste lugar, o casamento não é apenas uma opção para as mulheres: é o único objetivo da vida delas.

O tamanho do corpo da mulher indica quanto espaço ela ocupa no coração de seu marido. Quanto mais ela espalhar o tapete em que se senta, melhor. Mas, como tudo na vida, engordar requer sacrifícios, e as técnicas de engorda (leblouh) de meninas são verdadeiramente desumanas.

É bom lembrar que não estamos falando de lugares onde empresários abram filiais do McDonald’s. Para engordar na região desértica da Mauritânia não há biscoitos, pães doces, leite condensado ou hambúrguer. Não há bobagens para se beliscar entre as refeições. Mas há leite de vaca e de camelo, há cuscuz e há surras.

As meninas começam a ser engordadas ainda pequenas, por volta dos cinco anos. A engorda pode ser feita em casa ou em fazendas especializadas no assunto. As meninas não podem brincar e correr como os meninos. Ao contrário, ficam sentadas enquanto alguém lhes dá leite para beber em grandes tigelas. As estratégias para convencer as meninas a beber o leite incluem pedaços de madeira apertando seus dedos dos pés: enquanto sentem dor, se distraem e engolem o leite. Se vomitarem, podem ser obrigadas a lamber do chão o que desperdiçaram. Elas choram e se lamentam, mas não tem chance de se libertar.

Depois de se casarem, a luta para manter a forma continua. Nas épocas de seca, tudo é mais difícil, pois a comida é pouca. Resta esperar pelas chuvas, para que os animais cresçam e produzam mais leite. Ou então comprar remédios para engordar. Xaropes, pastilhas, corticoides… sim, corticoides. São vendidos sem receita médica, mas aumentam muito o apetite. E, é claro, as mulheres não praticam qualquer exercício físico, que seria um gasto de calorias arriscado. Com isso, estas mulheres, que passam a maior parte do tempo dentro de suas casas, sentadas, acabam ficando incapacitadas muito cedo. Elas tem apenas gordura, musculatura muito fraca e pouca saúde. Aos 40 ou 50 anos, já não conseguem mais andar. E então vão ocupar o tempo engordando as meninas das novas gerações.

A prática da alimentação forçada resiste e atinge cerca de 10% das meninas da Mauritânia. Nas tribos adeptas, a coisa é simples: mulheres gordas são lindas, e qualquer sacrifício é válido para que elas fiquem e se mantenham gordas durante toda a vida. Não tem discussão ou argumento.

É impossível não me sentir intrigada por uma sociedade em que se dê tamanha importância ao formato do corpo de uma pessoa. Em que a aparência seja mais importante que a substância, e onde as mulheres – sempre elas – sejam submetidas e se submetam a sacrifícios hediondos em nome da aparência física. E daí alguns podem pensar – bom, são tribos no deserto, né? E mais não se diz, porque é politicamente incorreto insinuar que outras culturas sejam “atrasadas”.

E daí, daí a gente liga a televisão e vê o Drauzio Varella no Fantástico entrevistando a mulher anoréxica e a outra que sofre de vigorexia. E vê no NatGeo um documentário inteirinho falando sobre o tabu da obesidade e outro sobre o tabu da magreza extrema. E os trocentos anúncios de remédios naturais, e outros nem tanto, e dietas, e programas de exercícios que vão te ajudar a não ter mais vergonha do seu corpo e a poder vestir tudo o que quiser. E percebe que vive numa sociedade que se preocupa absurdamente com o formato dos corpos humanos. E a gente nem vive numa tribo.

E depois disso a gente desliga a televisão, escova os dentes e dá uma checada no espelho, admirando a silhueta. E então a gente vai deitar, dando graças aos céus porque não precisou nem tomar litros e litros de leite de camelo para ficar mais gorda e nem enfiar o dedo na garganta para se livrar do que ingeriu na hora do jantar. E antes de fechar os olhos pensa, pela milésima vez, que foi muito bom ter se decidido a trilhar o caminho da aceitação do próprio corpo.

0 comentários

  1. É isso aí! Já conhecia o caso da Mauritânia e fico chocada. A vida todas temos problemas com nossos corpos, emb usca de aceitação, algo que caiba em algum padrão. Acredito que virá uma época em que se aceitar será a lei.

    Eu sempre fui magra e por muitos anos achei que ser gordinha era o certo. Lutei e tentei de tudo para engordar. Hoje, magra, mas cheia de problemas de colesterol e gordura, percebo que meu físico tá boma té demais. Tem muita gente querendo ser o que sou.

    Agora busco a saúde, exercícios e boa alimentação, não para ser magra, mas para viver bem. No meu blog eu até falo dessa mudança. Sorte que temos essa liberdade de escolha.

  2. noooossa é cada uma que vemos, adorei o post.

    http://anitamakingof.blogspot.com.br/

  3. Sensacional o post… nenhuma diferença entre o deserto e a selva de pedra.

  4. Mag disse:

    Chis não conhecia o caso da Mauritânia mas não me impressiona nem por 1 segundo. Vivemos em sociedades (90% delas) machistas, nas quais as mulheres são deformadas (no sentido literal) em nome do sexo masculino. Temos Twiggy, temos as mulheres da Mauritânia, as mulheres-girafa, tivemos as japonesas e suas flores de lótus e, principalmente, vejos mulheres que colocam silicone em todas as partes do corpo e todo mundo acha absolutamente normal, dizendo que apenas o que o outro faz é errado e chocante. Porque o novo modelo de beleza é esse: corpo de anoréxica com silicone para compensar.
    Excelente post, parabéns.

  5. Marcia disse:

    Excelente texto!!! Informativo(cultural) e reflexivo! Parabéns!! 😉

  6. Chris disse:

    @Priscilla, acho que a única solução possível é que a gente aprenda a se aceitar. Aprendendo, a gente tenta ajudar os outros nessa tarefa. Que não é fácil, mas tem que ser feita, porque não tem sentido a mulherada se sentir infeliz por ser o que é, né? E você tá certíssima na sua busca pela saúde, não importa o formato do seu corpo, o importante é viver bem e ser feliz! Beijão

    @Mag, eu te confesso que fiquei chocada. Eu já ouvi, claro, casos de meninas jovens, adolescentes, que se submetem a todo tipo de coisas em busca do corpo magro na nossa sociedade. Mas lá na Mauritânia, são crianças de 5 anos! 5 anos, e seus dedinhos são apertados para que engulam litros e litros de leite! É de lascar. Enquanto o mundo ainda me surpreende, eu vejo que sou mesmo uma otimista… Beijo.

    @Marcia, obrigada! Que bom que você gostou. Tem coisa nesse mundo que a gente nem imagina, né? Beijo

  7. Virginia disse:

    Gente que absurdo!!! O que é esse mundo em que vivemos??? Sério, não tem salvação.

  8. Eliana disse:

    Nossa,estas coisas mexem demais comigo.Violência pura,não tem justificativa!!!!Copiei o link do artigo para recomendar no meu blog.Temos tantas coisas contra nós que me assusta descobrir ainda mais,mesmo que antiga da idade do mundo!Bjs

  9. Cecilia disse:

    Totalmente chocada, não sabia disso… :((((

  10. Renata disse:

    Quando li o começo brinquei falando que ia p lá ser gorda e feliz…
    Mas a verdade é que qualquer tipo de dieta (pra engordar ou emagrecer) é muito difícil, e quando chega no extremo – que é esse caso – é desumano.
    A obrigação da deformidade do corpo é um ato de tortura, e o pior, pra eles é o certo e acabou.
    Pra mim, isso é a mesma coisa da chinesas que quebram o pé, das africanas que esticam o pescoço com argola… Não faz o menor sentido na minha cabeça, mas na cultura deles tem “tudo a ver”.
    O ser humano é estranho.

  11. Mas vcs percebem que é sempre a mulher que é obrigada a se enquadrar a padrões? Porque não os homens? Tribo por tribo, vivemos é numa sociedade ainda machista, seja aqui ou na China (ou na Mauritânia).

  12. Jé Nogueira disse:

    Chris, não sabia sobre esse caso, e fico chocada! Qtas formas de de oprimir a mulher ainda existem no mundo? Todas elas tem potencial pra serem grandes pessoas, fazerem o que querem e por cultura acabam disperdiçando suas vidas, e é uma pena que por ser cultural ainda vai demorar e muito pra algo mudar. Adorei o post, muito interessante! Beijos

  13. Nossa! Adorei o post. Fico me colocando no lugar destas pessoas, complicado…
    http://modaqueseusa.blogspot.com.br/

  14. Impressionante como tudo sobra para as mulheres !!!

  15. Leonid Hulpan disse:

    É como eu costumo dizer: o Mundo é ainda muito atrasado e ignorante.

  16. Matéria fantástica! Mostra como nossa sociedade "desenvolvida" não se difere em nada das chamadas selvagens… A matéria faz um espelho inverso que é o retrato ainda de uma dominação de uma sociedade machista quanto ao mito da mulher ideal…Ser livre é viver se aceitando, mas com saúde, mas é tão difícil quanto alcançar a iluminação em vida…

  17. Paula Ribeiro disse:

    fiquei pensando muito nisso depois da gravidez… como reclamar de um corpo que fez uma coisica tão perfeitinha?

  18. Nossa falou e disse, apesar de ser ao contrário, o motivo é o mesmo formato do corpo!

  19. Gi Vidmar disse:

    Sensacional, principalmente a conclusão. Bacana descobrir que existe muito mais nesse mundo do que a gente podia imaginar. O triste é pensar que a essência das coisas (pelo menos nesse caso), seja a mesma, em qualquer canto do mundo.

  20. Carla Santos disse:

    Que absurdo fiquei chocada…

  21. Cada um com seu padrão de beleza, cada um com seus sacrifícios.
    Triste é quando você é não pode dizer não a eles.

    Bruno Neves respondeu:

    Texto excelente!

    Liliam Carvalho respondeu:

    " E depois disso a gente desliga a televisão, escova os dentes e dá uma checada no espelho, admirando a silhueta. E então a gente vai deitar, dando graças aos céus porque não precisou nem tomar litros e litros de leite de camelo para ficar mais gorda e nem enfiar o dedo na garganta para se livrar do que ingeriu na hora do jantar. E antes de fechar os olhos pensa, pela milésima vez, que foi muito bom ter se decidido a trilhar o caminho da aceitação do próprio corpo."

    Liliam Carvalho respondeu:

    esse parágrafo, define bem o meu estado hoje 🙂

    Bruno Neves respondeu:

    Aham!

  22. Sempre, sempre as mulheres…. uma das coisas mais tristes que já li.

    Adri Feitosa respondeu:

    As crenças e os preços que alguns pagam. Cruel. Também fiquei abismada.

    Nilce Cmb respondeu:

    Triste… 🙁

  23. Excelente texto! Além de tudo a violência com que as crianças são tratadas é de cortar o coração.

  24. Daya Almeida disse:

    que absurdo!

  25. Triste a realidade de algumas mulheres que ainda precisam se sujeitar à humilhações de homens tão dementes.

    Paulo Henrique Verissimo respondeu:

    Feminista…rsrsrs

    Aline Falcomer respondeu:

    Feminista?? Revoltar contra uma cultura que obriga meninas a tomarem leite amarradas, com pedaços de madeiras nas pernas e a ficarem deitadas o dia todo para alcançar o peso que agrade seus futuros maridos é ser feminista?

    Paulo Henrique Verissimo respondeu:

    É…

  26. ana - hvaoff disse:

    Que post incrível. O parágrafo conclusivo foi maravilhoso. Qual a diferença da Mauritânia para a nossa sociedade mais “evoluida”?

  27. Vanessa Lira disse:

    Muito interessante!

  28. Raquel Tavares disse:

    Vanessa Melo, Viviane Monteiro Olhem essa reportagem….

  29. Larissa disse:

    Muito bom o post ! SUas palavras finais sao otimas e concordo com cada palavra, liberdade éa gente que faz quando nos aceitamos parabens!

  30. Adriana RP disse:

    Maravilhoso o post!

  31. Não é só na Mauritânia mas nas Américas, Europa, enfim.. Em todo o lugar há padrões. Lá as gordinhas que são vistas como bonitas, já aqui são as magrinhas. E como lá por causa disso há problemas, esse modo de pensar também causa consequências aqui, há as anoréxicas, as que querem ficar musculosas e etc.. É a mesma coisa.

  32. "É impossível não me sentir intrigada por uma sociedade em que se dê tamanha importância ao formato do corpo de uma pessoa. Em que a aparência seja mais importante que a substância, e onde as mulheres – sempre elas – sejam submetidas e se submetam a sacrifícios hediondos em nome da aparência física. E daí alguns podem pensar – bom, são tribos no deserto, né? E mais não se diz, porque é politicamente incorreto insinuar que outras culturas sejam 'atrasadas'.

    E daí, daí a gente liga a televisão e vê o Drauzio Varella no Fantástico entrevistando a mulher anoréxica e a outra que sofre de vigorexia. E vê no NatGeo um documentário inteirinho falando sobre o tabu da obesidade e outro sobre o tabu da magreza extrema. E os trocentos anúncios de remédios naturais, e outros nem tanto, e dietas, e programas de exercícios que vão te ajudar a não ter mais vergonha do seu corpo e a poder vestir tudo o que quiser. E percebe que vive numa sociedade que se preocupa absurdamente com o formato dos corpos humanos. E a gente nem vive numa tribo."

  33. Bruna Reis disse:

    Nossa, é tipo a terra do contra…

  34. Ana Beatriz Santos disse:

    "… onde as mulheres – sempre elas – sejam submetidas e se submetam a sacrifícios…" :/

  35. Excelente texto e excelente conclusão!

  36. Alê Oziel disse:

    Triste….Mais muito interesante….

  37. Isabel Aranha disse:

    “É impossível não me sentir intrigada por uma sociedade em que se dê tamanha importância ao formato do corpo de uma pessoa. Em que a aparência seja mais importante que a substância, e onde as mulheres – sempre elas – sejam submetidas e se submetam a sacrifícios hediondos em nome da aparência física. ” Lendo isso eu não consegui não pensar na nossa própria sociedade… Chris, talvez você consiga trilhar um caminho de tranquilidade com a sua aparência, mas acho que 99% das mulheres da nossa sociedade ainda estão muito longe disso… No fim, não somos tão diferentes da Mauritânia

  38. Chris disse:

    Gente, em primeiro lugar, super obrigado por todos os comentários, que são muitos e muito enriquecedores.

    Eu entendo que a vida na Mauritânia esteja a anos luz das nossas, e que a diferença aqui “pesa” a nosso favor, porque nós temos escolha, embora às vezes pareça que não. Podemos escolher não odiar nosso corpo, seja ele como for. Podemos escolher protestar. Podemos escolher um caminho só nosso. Podemos, sim.

  39. Tati Ramone disse:

    "É impossível não me sentir intrigada por uma sociedade em que se dê tamanha importância ao formato do corpo de uma pessoa. Em que a aparência seja mais importante que a substância, e onde as mulheres – sempre elas – sejam submetidas e se submetam a sacrifícios hediondos em nome da aparência física. E daí alguns podem pensar – bom, são tribos no deserto, né? E mais não se diz, porque é politicamente incorreto insinuar que outras culturas sejam “atrasadas”.

    E daí, daí a gente liga a televisão e vê o Drauzio Varella no Fantástico entrevistando a mulher anoréxica e a outra que sofre de vigorexia. E vê no NatGeo um documentário inteirinho falando sobre o tabu da obesidade e outro sobre o tabu da magreza extrema. E os trocentos anúncios de remédios naturais, e outros nem tanto, e dietas, e programas de exercícios que vão te ajudar a não ter mais vergonha do seu corpo e a poder vestir tudo o que quiser. E percebe que vive numa sociedade que se preocupa absurdamente com o formato dos corpos humanos. E a gente nem vive numa tribo."

    Demais!

    Edelsio Lima Jr. respondeu:

    Que horror!

  40. Wilma Barbosa disse:

    É impossível não me sentir intrigada por uma sociedade em que se dê tamanha importância ao formato do corpo de uma pessoa. Em que a aparência seja mais importante que a substância, e onde as mulheres – sempre elas – sejam submetidas e se submetam a sacrifícios hediondos em nome da aparência física. E daí alguns podem pensar – bom, são tribos no deserto, né? E mais não se diz, porque é politicamente incorreto insinuar que outras culturas sejam “atrasadas”.

    E daí, daí a gente liga a televisão e vê o Drauzio Varella no Fantástico entrevistando a mulher anoréxica e a outra que sofre de vigorexia. E vê no NatGeo um documentário inteirinho falando sobre o tabu da obesidade e outro sobre o tabu da magreza extrema. E os trocentos anúncios de remédios naturais, e outros nem tanto, e dietas, e programas de exercícios que vão te ajudar a não ter mais vergonha do seu corpo e a poder vestir tudo o que quiser. E percebe que vive numa sociedade que se preocupa absurdamente com o formato dos corpos humanos. E a gente nem vive numa tribo.

  41. Brenda Cirilo disse:

    Muito bom para refletir que a beleza não passa mais do que um padrão cultural, e o quanto nós, mulheres, estamos submetidas à pressão desse padrão, e que temos uma grande responsabilidade com a nossa saúde.

  42. Dimas Novel disse:

    Pelo menos lá a família não anda tão bagunçada como no brasil. Eles tem um padrão de "beleza", e de cultura e realiza sacrifícios para garantir isto. Triste é quando a cultura social de um pais não é voltada para padrões culturais.

  43. Anônimo disse:

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