Coluna da Chris

Coluna da Chris: Cruzadas

 

A estrada da autoestima não é uma reta sem obstáculos, asfalto liso, sinalização clara. Pelo contrário. Ela é tão acidentada e tortuosa, tão cheia de curvas e desdobramentos que a gente muitas vezes tem que pegar o mapa, correr a ponta do dedo nas linhas, tentar entender onde a gente chegou e para onde quer ir. E se a gente se confunde demais no caminho, parece que às vezes quem acompanha de longe o nosso avanço se confunde ainda mais, não entende direito aonde a gente tá tentando chegar. Por exemplo, quer ver? Autoestima não tem nada a ver com conformismo, apesar de algumas pessoas confundirem.

Ser “conformista” significa que a gente se dispõe a aceitar passivamente uma situação desfavorável sem lutar, sem tentar mudar. E isso vem a ser exatamente o oposto do que alguém em busca da autoestima procura. Na verdade, a gente tem que mudar o foco. Quem disse que a situação X, em se tratando de aparência, é desfavorável? E por quê? Então a palavra a ser repensada não é situação, e sim desfavorável.

“Desfavorável” significa contrário, adverso, hostil. Tenho cá para mim que um corpo não pode ser contrário, é impossível. Adverso a que, de que forma? E hostil, a quem? Conceitos, estes sim podem ser contrários, adversos, hostis. Mas conceitos somos nós mesmos que criamos, certo? Ou não. Na verdade, a maior parte das pessoas acata conceitos externos e os aplica no seu dia a dia como se fossem seus. Mas estes conceitos a gente só aceita se quiser, só se submete a eles se assim escolher.

“Escolher” significa selecionar, entre as opções, aquilo que nos trará mais qualidade – neste caso, mais alegria, mesmo. É que tem uma coisa que as pessoas esquecem o tempo todo, é que elas podem mudar, elas podem escolher pensar de outro jeito, agir de outro jeito, viver de outro jeito. Exemplo? “Eu não me gosto gorda”. Ok, mas sabe de uma novidade? Você pode escolher se gostar do jeito que é. Isso não quer dizer que se deva abandonar a dieta, significa apenas que é possível *evoluir* e nunca mais dizer que não se gosta por conta da sua aparência física, principalmente se você for – a maioria das pessoas é – capaz de gostar de pessoas com tipos físicos completamente diversos entre si.

“Evolução” é qualquer processo de desenvolvimento e aperfeiçoamento: de um saber, de um sentir, de um viver, mesmo. Evoluir é progredir. Ser capaz de se livrar dessa teimosia de “só me gosto assim ou assado” e passar para a plenitude, a liberdade de se gostar, ponto final, sem condições. Isso é progredir, é se dar mil vezes mais chance de ter momentos felizes. E, na verdade, é uma das coisas mais fáceis de fazer, porque não depende de qualquer outra pessoa ou variável externa, mas apenas da nossa própria vontade. Eu quis me livrar de amarras, de conceitos alheios que me diziam que eu não podia gostar de mim, ou me achar bonita, sendo como sou. Eu fiz. Mas eu só fiz porque eu quis.

Querer é desejar de verdade, é ter a firme intenção. E depois de querer, a gente põe a mão na massa para chegar lá. É a parte mais empolgante da história toda, porque é aí que a gente percebe na verdade quanto se prende, se amarra em coisas que não fazem bem – coisas que muitas vezes nem tem a ver com a forma como a gente se vê, mas sim com o jeito que imagina que os outros vêem a gente – e não trazem felicidade ou proveito.

“Proveito” é o resultado positivo de uma experiência, é aquilo que de melhor se tirou dela. E vale a pena. Tá certo que nem todo dia a gente vai estar feliz, nem todo dia vai estar tudo certo, mas isso também é importante, até para a gente conseguir ver direitinho os efeitos de não se sentir bem, o quanto isso atrapalha basicamente tudo que a gente faz.

Gostar de ser gordinha, de ser magrinha, de ser baixinha ou altona, cabelo liso ou crespo, bocão ou nariz de batatinha, querer ser o que é, ou preferir tentar emagrecer, engordar, usar salto alto ou baixo, prender o cabelo ou soltar a juba, tudo isso tá certo e é bom, desde que em qualquer situação a gente seja capaz de dizer: eu gosto de mim do jeito que eu sou hoje, e vou gostar de como parecerei amanhã, e eu já gostava desde anteontem, quando eu era bem diferente.

É fácil. É só começar.

3 comentários

  1. Paty Simba disse:

    É um desafio diário..se gostar..cada vez que aprendo a me perdoar ou aceitar coisas em mim, imediatamente me sinto péssima por ter aprendido só agora, e ter me maltratado por tanto tempo…louca não?

    Anna Christina Saeta respondeu:

    Totalmente normal, Paty, eu também me maltratei durante tanto tempo que, agora que estou aprendendo a me amar, fico até meio boba com isso, estilo primeiro amor da adolescência, sabe? É uma sensação muito boa 🙂

  2. Badá disse:

    Não vejo nada de errado em não gostar do jeito que se é, desde que haja disposição para mudar. Muitos de meus defeitos, físicos ou psicológicos, eu mudei porque não gostava deles, me sentia ridícula, inadequada, desagradável. Não só para mim mas para os outros também, afinal vivemos em grupo, somos seres sociais, e é importante ser aceito e estimado pelos pares. O que eu não gostava, mudei. Não me conformei, nem “passei a gostar” à força. Já com meu nariz, não houve como passar a gostar: me conformei, sim. Não o alterei porque tenho medo e não tenho dinheiro para uma cirurgia, então tive que “engolir”, mas não é que eu goste – é conformismo puro e simples. Não vejo nada de errado em não gostar de algo em si e querer mudar, mas desde que a pessoa entenda que não gosta daquele detalhe específico, e que isso não compromete seu amor por si mesma. Nunca deixei de me amar e de querer meu bem, de me estimar, mas sim, fiz força para mudar o que não aceitava, e faço até hoje. É importante, para mim, corresponder, em certa medida, a certas aspirações morais e estéticas. É assim que nos autoavaliamos e nos achamos adequadas ao mundo do qual fazemos parte, ainda que seja um mundo bem particular. Detestar defeitos não é detestar a si mesma, assim como amar a si mesma não é amar o nariz feio, amar a pança, amar as varizes. A gente se ama, sim, mas esse amor não é cego, não deve ser. Ao nos adequar, nos autoafirmamos, e nos amamos mais, porque nos aprovamos. São mecanismos simples que a antropologia detectou no ser humano de todas as épocas.

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