Coluna da Chris

Coluna da Chris: Felizes para Sempre

 

… e então a Perséfone entra na Igreja, radiante, vestindo um lindo modelo tomara-que-caia – tomara que não caia, para o bem das famílias brasileiras! – e diz o “sim” ao seu amado benfeitor, sob o olhar de franca desaprovação dos agora sogros.

Eu sei, falar dessa novela já encheu a paciência de todo mundo. É um contínuo jogo dos erros, que reforça todo tipo de teoria preconceituosa contra mulheres em geral, gordas em especial. O fisioterapeuta bonito que se casa com a enfermeira gorda recebe críticas de todo mundo. Como se fosse a coisa mais normal do universo que todo mundo se sinta no direito de dizer a ele que moça é gorda, que é difícil de abraçar, que não combina com ele, que vai fazê-lo infeliz unicamente por ser gorda.

É normal, gente? Porque, vejam bem, eu estou do outro lado dessa história. Eu sou a gorda. Não sei se algum homem, por sair comigo, teve que enfrentar esse tipo de coisa. Piadinhas fora de hora – até mesmo no altar, vinda de um dos padrinhos -, o absoluto desespero da família, constrangimentos. Eu, certamente, nunca me senti no direito de dizer a quem quer que fosse que seu/sua parceiro/a não era adequado por ser baixo/gordo/moreno (é, estou apenas contrapondo a versão de que a “beleza” é alta, magra e loira).

Eu sei que não sou a única pessoa que acha tudo que envolve a história da Perséfone anormal. Muita gente melhor que eu já falou sobre isso, já reclamou, já fez abaixo assinado, já pediu ajuda aos universit… opa, não, não foi aos universitários, que estes estão em greve, na verdade pediram foi para psiquiatras e analistas falarem sobre o assunto, e eles falaram. Não vi ninguém concordar com a maneira com que o autor conduz a personagem. E vamos convir, é uma obra de ficção.

Mas a verdade é que, bem ou mal, é sucesso. Provoca discussões, polêmicas. As pessoas falam sobre isso. Inclusive no programa da Ana Maria Braga. A Perséfone – quer dizer, a atriz Fabiana Karla – esteve por lá. Defendeu sua personagem, defendeu a si mesma: preciso pagar a Disney das crianças no final do ano! Não é ela quem escreve as cenas, não é ela a criadora da personagem. Fato.

E daí fizeram uma matéria para ajudar as mulheres gordas a escolher o vestido de noiva. Para variar, a coisa é taxativa. Não dizem o que sugerem, mas o que NÃO PODE. NÃO PODE usar véu curto (mais uma vez, obrigada, universo, por me permitir ser alta, porque gorda é curta e tem que procurar se alongar). NÃO PODE usar decote quadrado. NÃO PODE usar enfeites na lateral da cabeça. NÃO PODE deixar aparecer a gordura debaixo dos braços. NÃO PODE usar o vestido que você quer, moça – e, note-se, isso não se aplica só às gordas, a lista do “não pode” na moda serve para todo mundo que não tenha muita altura e pouquíssimo peso.

Eu acho importante dizer, a esse ponto, que eu não peço, nunca pedi, a ninguém que aplauda uma pessoa por ela ser gorda. Do mesmo jeito que não espero que aplaudam outra apenas por ser magra. Às vezes parece que isso não fica muito claro. Não faço “apologia da gordura”, e nem da magreza. Mas será que é demais sonhar com um tempo onde pessoas não se deem o direito de determinar o que é certo ou errado para o outro vestir? Gente! Que imensa pretensão é essa de dizer a alguém que ela NÃO PODE usar o vestido que quer no dia do seu próprio casamento? Separar meia dúzia de modelos e afirmar, em rede nacional, que aquilo é o que ela DEVE usar, como se o resto fosse proibido?

Às vezes parece que é uma luta inglória. Tentar convencer os outros de que não se busca aprovação, mas unicamente aceitação. Viva como quiser viver, vista o que quiser vestir, e me dê o direito – o DIREITO – de viver como quero viver e vestir o que eu quero vestir. Não me parece um desejo descabido. Pode olhar sem medo para as gordurinhas debaixo dos braços da gordinha, eu juro que elas não vão te fazer mal algum. Verdade. Você não terá pesadelos com isso.

Vamos combinar assim: eu deixo você ser do jeito que você quiser, e você me deixa ser do jeito que eu quero. E cada uma veste aquele vestido que gostar mais, aquele vestido que te faz sentir linda, independente de que partes sejam escondidas ou reveladas. Sem críticas. Sem regras. E todas seremos felizes para sempre.

8 comentários

  1. Beatris disse:

    Nossa concordo muitooooO!! Eu tbm to achando esse assunto o ó!! Gente não é tãoo anormal assim ser gordinho!! Tão exagerando muitooo!!

    http://ideiasdeartista.blogspot.com/

    beijoo

  2. Alessandra Raake disse:

    Então eu tive sorte. É a segunda vez que leio o nome Perséfone , e como creio a mesma não ser uma deusa grega vou apenas comentar do texto. A mídia, a propaganda faz isso constantemente. Tenta dizer para todos o que é "ideal" penso eu também. Não sou fofinha, mas fico boquiaberta com as "mercadorias" que a mídia tenta dizer "é perfeito para ti, Alessandra". Parabéns Anna Christina Saeta, como sempre gostoso de ler!

  3. Eliana Saeta disse:

    Falando de Ana Maria Braga, ela já defendeu tese de que cada um deve ser feliz do jeitinho que é, gorda, magra, baixa, alta, quando morreu numa cirurgia de redução de estomago uma das culinaristas que fazia o programa dela a alguns anos atras… Interessante como ela esqueceu esse episodio e agora faz apologia da magreza… Como você, minha ruiva linda, alta, de olhos verdes, orgulho da tia, acho que cada um deve se preocupar com o proprio corpo e ter um olhar de mais amor consigo mesmo e com os semelhantes, afinal ninguem tem o corpo perfeito e o que importa muito mais que o corpo, é cultivar o bem estar e a felicidade.

  4. Luciana disse:

    Eu já cansei deste blá blá blá em cima da personagem Perséfone e de sua vida na novela. É ficção. Por que a vida de uma personagem de novela incomoda a tantas mulheres? A mim não incomoda nem um pouco. E não fere e nem ameça a minha autoestima. Ela foi criada para ser assim e qualquer autor odeia que tentem mudar aquilo que ele criou. Se não gosta da personagem ou da trama, não acompanhe a novela. Muda de canal. Não veja o que não gosta. É tão simples. Certo ou errado é assim que tem que ser. Eu não gosto de tantos personagens e tramas, mas nem por isso eu fico martelando em cima disso e escrevendo para os autores para eles mudarem a história do personagem.

  5. Chris disse:

    Oi, Luciana, tudo bem? 🙂 Então, a coisa é um pouco mais complicada do que pode parecer. Mudar de canal é uma opção utilizada por pessoas que tenham recursos para isso, mas não por todo mundo. A gente sabe o alcance que tem uma novela das 9. Não é ilusório, é real. A mensagem que se passa pode ser muito prejudicial. A personagem foi desenhada de tal maneira que, aos meus olhos, a mensagem é – “meninas gordas, já que vocês não são bonitas, sejam boazinhas. Assim vão conseguir se casar, que é a única coisa que uma mulher pode almejar na vida”. Isso, junto com um monte de outras coisas, reforça a ideia de que mulheres fora do padrão não podem ter os mesmos sonhos e benefícios que as mulheres dentro do padrão. Isso pode sim mexer com a autoestima de muita gente. Eu fico feliz por não ser o seu caso – e nem é o meu também 🙂 – e fico mais feliz ainda porque, apesar de tudo, você escreveu para uma autora para criticar o que ela escreveu 🙂 Autores que se prezam gostam de ter feedback, e não odeiam quando sua obra é vista e comentada. Beijo

  6. Ligia disse:

    Chris, eu ADORO os teus textos, me identifico muito com eles!
    Olha, SE não fosse o fato de essa novela ser inteira sem pé nem cabeça, a maior loucura da televisão, eu poderia até pensar num argumento inteligente… Até tentei quando a história da Perséfone começou…
    Mas a família do noivo tem uma filha autista (o que, subentende-se, deveria torná-los seres um pouco mais… humanos, visto que enfrentam preconceitos com isso) e outra filha bandida (alooou bom senso!). E de repente o maior problema daquela família era a nora GORDA. Ah, tá, né.
    Eu acredito que pra mudar a sociedade, a gente precisa mudar a gente mesma, sabe… A gente não pode tolerar essas coisas, dar ibope pra uma história sem noção dessas (e até mesmo boicotar patrocinadores…), aturar amigos e família dizendo como a gente deve ser com o argumento “estou falando para o seu bem”. Tenho tentado fazer isso, um pouco por dia, com delicadeza (porque não sou do tipo que compra a briga no grito) e posso dizer que o retorno tem sido maravilhoso. Preciso estar bem comigo, que serei minha companhia pra sempre, né?
    Desculpa o texto gigante! E muito obrigada pelos textos tão inspiradores 😉

  7. fernanda disse:

    excelente texto e excelente resposta a leitora luciana. infelizmente, o obvio tem que ser dito e repetido, repetido. nao sou gorda, mas sou mulher e, como tal, tambem estou subjugada aos ditames futeis e temporarios do que eh ser bonito atualmente.

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